terça-feira, 15 de março de 2016

ESCOLHENDO CHEFIAS INCOMPETENTES

Jacinto Flexa


Em um desses cursos de chefia comuns no serviço público, geralmente ministrados para pessoas que não querem aprender, por professores que não sabem ensinar, uma psicóloga distribuiu para cada um dos dez participantes um envelope contendo oito pedaços de cartolina recortados em formatos e tamanhos diversos. Colocados nas posições certas, os recortes formariam quadrados, um para cada envelope. Na realidade, cinco envelopes continham sete pedaços de cartolina, e os outros cinco continham nove, pois um pedaço de cartolina havia sido previamente retirado de cinco envelopes, e cada um dos outros cinco recebeu um pedaço a mais.

Ao distribuir um envelope para cada participante, a psicóloga informou que “todos teriam de formar um quadrado” no menor tempo possível, e recomendou que mantivessem o silêncio. Suponho que o mais rápido ganharia pontos para eventuais promoções. Critério, aliás, que não me parece válido para esse efeito, pois a maior rapidez nessa tarefa se adquire com a ajuda de golpe de vista, memória, agilidade manual, experiência prévia – nenhuma se relaciona diretamente com a capacidade para dirigir. Do mesmo modo que a facilidade para marcar gols, por exemplo, pode indicar o melhor artilheiro, mas não necessariamente o melhor líder de uma equipe nem o melhor treinador.

Após receber o envelope, cada um examinou o conteúdo, e logo depois todos começaram a montar o quadrado. Nenhum conseguiu, pois o pedaço de cartolina que faltava para um estava com outro, e este outro tinha um pedaço sobrando. Todos dependiam de encontrar o parceiro adequado. Como você pode concluir, talvez o teste seja bom para definir quem deve se casar com quem, tendo em vista que muitas vezes os casais se atraem em função do que falta em um e sobra no outro. Poderia ser útil numa agência matrimonial, não para promoções a cargos de chefia.

No caso concreto, o teste só conseguiu identificar o mais afoito e mais apressado dos dez. De certa forma, serviu também para caracterizá-lo como quem menos entende uma ordem recebida, além de mostrá-lo como prejudicial à atividade dos outros e aproveitador dos recursos alheios em benefício próprio. Como se concluiu tudo isso? Não, caro leitor, ninguém concluiu assim naquela ocasião, e mesmo eu estou fazendo esta avaliação agora, enquanto escrevo.

Quando o apressadinho percebeu que só lhe faltava uma peça para completar o quadrado, concluiu que ela devia estar com um dos outros, e teria que localizá-lo. Como? Procurando entre as peças dos outros, é claro, mas não podiam conversar. Decidiu fazer sinais aos outros, convocando-os a colocar no chão todas as peças que tinham. Ninguém contestou, pois estavam todos empacados. Como esse “bom geral” lhes pareceu mais avançado no trabalho, o coleguismo mandava ajudá-lo.

Calcule o leitor a barafunda de setenta e três peças amontoadas no chão, além das sete do “bom geral”. Encontrar a peça “figurinha difícil” tornou-se para ele uma tarefa parecida com procurar uma agulha num monte de agulhas. Daí para diante ele passou a agir como barata tonta. Não progrediu nada, além de impedir que os outros progredissem. Argumentou depois que a instrução da psicóloga poderia ser entendida como “todos devem formar só um quadrado” (um quadradão único, portanto), e ele resolvera assumir a tarefa.

Você, caro leitor, concluiria que aquele apressadinho tinha qualidades de liderança? Que conseguiria levar adiante tarefas de equipe? Que deveria ser promovido ao primeiro cargo disponível? Na evidente suposição de que a sua conclusão coincide com a minha, vou informar-lhe que poucas semanas depois o apressadinho havia sido promovido. Ninguém lamentou, afinal ele era um “bom praça” e muito bem intencionado. Mas basta isso para chefiar, liderar, comandar?

A solução de um problema deve ser procurada pela própria pessoa que deparou com ele. Se não conseguir, deve recorrer à ajuda de quem está mais próximo – a família ou amigos, por exemplo. Se o problema atinge número maior de pessoas, e supera as capacidades da família, deve recorrer a organismos de maior amplitude, como a prefeitura. O governo do estado pode ser acionado quando a solução se torna impossível em níveis mais baixos. Só em último caso o assunto deve ser levado ao governo federal, ou mesmo a governos de outros países.

Resumindo: O que pode ser resolvido pelo inferior não deve ser atribuído ao superior nem assumido por ele. Norma sábia, lógica, adequada e muito prática, mas muito esquecida por governos centralizadores. Estes tendem a assumir os problemas de todos, mas de fato não os resolvem. Pelo contrário, para tapar alguns buracos eles criam problemas muito maiores, que passam à categoria de insolúveis.
Você acha que a psicóloga entendeu assim o resultado do teste? Triste ilusão.

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sexta-feira, 4 de março de 2016

LADRÕES DE GALINHA E VAQUINHA

Jacinto Flexa

Uma notável coincidência ocorreu nos dois únicos julgamentos de que participei como jurado. No primeiro, o crime fora consequência de um roubo pequeno. Estava mais do que provado, mas um dos jurados se obstinava em absolver o réu. Insistimos para que reconsiderasse sua decisão, mas ele se explicou:

Sei que o crime está provado. O réu nega, como todo réu, mas do meu ponto de vista o crime foi cometido para roubar quantia pequena, o réu não passa de um ladrão de galinhas. O que considero errado é isso. Não vale a pena condenar alguém por motivo tão insignificante. E também não vale a pena arriscar-se por quantia tão pequena. Se quer roubar, o melhor é roubar pra valer.

Haveria muitos argumentos contra a posição assumida pelo meu colega jurado, mas de qualquer forma ele seria voto vencido, e ninguém quis perder tempo com argumentos desnecessários e inúteis. Evidentemente não concordei com a posição dele, fiquei espantado com o cinismo. Confirmada a sentença de condenação, saí do tribunal interessado em saber se ele só condenaria criminosos que fossem grandes ladrões. Não esses ladrões de quase nada, que também não dispõem de grandes quantias para pagar bons advogados e “outras despesas”. Tentei reencontrar o autor da frase, para conversarmos um pouco, mas não consegui.

Muito tempo depois, fui convocado para jurado do crime cometido por um funcionário público, acusado de desviar dinheiro do paquiderme estatal. Desvio grande, confirmado por uma série de depoimentos, documentos e fatos conexos.

Quando o acusado sentou-se no banco dos réus, não o reconheci imediatamente, mas a leitura do nome e outros dados não deixaram dúvida – era o jurado autor daquela frase, que agora ocupava a posição de réu, exatamente oposta à anterior. A incrível coincidência de eu estar ali para julgar aquele réu, depois de ter participado ao lado dele no julgamento de outro, trazia-me à memória a frase cínica: Se quer roubar, o melhor é roubar pra valer! Tudo confirmava que não era um ladrão reles, mas ladrão de grandes quantias. E a frase dele incluía a certeza de que se pode usar parte dessas grandes quantias para pagar bons advogados, ter cúmplices no corpo de jurados, comprar o que seja necessário, talvez até a parcialidade do próprio juiz.

Durante todo o julgamento o réu se mantinha tranquilo, como quem tem certeza da sua inocência. Ou de ser inocentado... A tranquilidade dele e os seus sorrisos para os jurados sugeriam não só a inocência, mas a certeza da absolvição. Houve belas entonações no discurso do advogado de defesa, até mesmo por ser patente no réu a tranquilidade e paz de espírito, que só se encontra no inocente.

Votei pela condenação, pois os autos do processo não deixavam margem a dúvidas. Mas quase todos os outros jurados o absolveram, a sentença foi lavrada, e o acusado saiu inteiramente livre.

Certamente o leitor não ignora o comentário de que no Brasil só existe cadeia para ladrão de galinhas. Explica-se, por ser o dinheiro do rico usado para comprar sua defesa: bons advogados, testemunhos favoráveis bem remunerados, produção fraudulenta de provas, comparsas no banco dos jurados, até juízes corruptos. O segundo réu (e também jurado no primeiro caso), que enriqueceu com o roubo de quantia vultosa, certamente usou parte dela para defender-se, e foi absolvido.

Se o ladrão é dos grandes, principalmente se pertence a uma grande quadrilha, tudo que é comprável está à sua disposição. Seus comparsas procuram evitar uma condenação; e se ele é condenado a uma multa ou devolução de grande quantia, podem se quotizar numa “vaquinha” para pagá-la. Ninguém pode incriminar os que gastam dinheiro para tirar de apuros um amigo; mesmo se tudo indicar que usam para isso o dinheiro roubado, e depois distribuído entre os comparsas para esse efeito.

Imagine que uma quadrilha roubou cem milhões, e durante o processo só se conseguiu incriminar o réu no roubo de dez milhões. É claro que não faltará dinheiro para a restituição. Seria muito natural exigir do culpado a restituição integral, mas muitas vezes os responsáveis até “se esquecem” de requerê-la. Também é evidente que não faltará dinheiro para os parceiros cobrirem eventuais multas e outras despesas. É muito estranho não se levantar suspeitas sobre amigos tão prestimosos. Investigadores que farejam tanta coisa poderiam até farejar um provável caixa comum desse dinheiro. Em termos mais atuais, investigar de qual cueca saiu esse dilúvio de doações.

Se esses fatos e comentários lhe fazem lembrar assuntos recentes do nosso noticiário, esteja certo de que não se trata de acaso.

Em tempo: O texto inicial é adaptado de uma crônica de Machado de Assis, intitulada Suje-se gordo. Veja que o problema é bem antigo. E só tem aumentado...

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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

RADICALIZANDO OS RADICALISMOS

Jacinto Flexa


Se o prezado leitor teve a louvável iniciativa de desfrutar o que escrevo nestas crônicas – muitas vezes são também agudas – provavelmente considera-me radical. Não me ofende nem um pouco. De acordo com a etimologia (radix = raiz, em latim), radical é quem tem convicções firmes, solidamente enraizadas em bom terreno. Só não é radical quem não tem raízes, portanto mantenho altaneiramente meus radicalismos, com olímpico desprezo pelos radicais que me acusam de radical: Odeio videogames; nunca vejo televisão; não batuco em tabletes; detesto jeans de qualquer tipo; abomino rock, punk, funk, rap e outros; fujo das modernidades decadentes deste nosso mundo encharcado de modernidades e decadências. Minhas convicções são firmes como o Corcovado. Especialmente quando o vejo como sustentáculo de Cristo Redentor.

Talvez alguns acreditem que posições como essas levam ao isolamento. Pelo contrário, eu as assumi conscientemente, e posso afirmar que nunca me senti solitário, anti-social, marginalizado. Não espero nem desejo aplausos de decadentes, escravos da moda, títeres a serviço da difusão dos maus costumes. Se fogem de mim, também eu fujo deles. Bendito isolamento, se me põe longe de gente assim.

Mas hoje eu tive um susto, deixando-me bastante decepcionado com os meus radicalismos. Não, não me julgue apressadamente, permaneço muito confortável nas minhas posições radicais, e mais seguro ainda. O meu susto foi em sentido contrário, isto é, encontrei gente mais radical do que eu. E até com um acréscimo muito valioso para os escravos da tecnologia: São cientistas (ohhh!), neurocientistas (nossa!!), usaram aparelhos de última geração (beleza!), ressonância magnética (que barato!!).
Quais as conclusões desses luminares? As mesmas que venho desenvolvendo com base exclusivamente nas minhas experiências e observações pessoais. Ótimo que eles tenham chegado a essas conclusões, mas eu não mudaria uma vírgula das minhas, se divergissem do que afirmei. Veja algumas conclusões interessantes:

• Ninguém deve usar o computador antes dos vinte anos. Depois disso, só quando estritamente necessário para o trabalho.

• Nunca se deve ver televisão, em nenhuma idade ou época da vida.

• Os videogames prejudicam a capacidade de raciocínio e o controle mental das crianças. Já se conhecia este efeito, mas pesquisas recentes o estendem aos adultos que passam a usar videogames. E os cientistas concluem que não se deve usá-los nunca.

Escrever à mão é mais benéfico para crianças, é necessário ao processo de aprender a ler e escrever.

Esta última conclusão leva-me a uma crônica recente (Entre lousa e tablete), onde mostrei com palavras e exemplos simples que o aprendizado pelos métodos tradicionais – com lousa, quadro negro, papel, lápis, caneta – gera conhecimentos muito mais duráveis e efetivos. Apontei as deficiências de quem usa tablete, celular inteligente e outros brinquedinhos cheios de tecnologia. E suponho ter deixado claro que o grau cada vez maior de analfabetismo funcional deriva em grande parte disso.

Você já deve ter notado, caro leitor, que raramente incluo referências completas, transcrições de estudos científicos, dados estatísticos complexos. Sei que isso é necessário e indispensável no âmbito técnico-científico, mas estaria deslocado numa crônica que pretende ser leve, uma espécie de conversa com o leitor. De modo geral, vinculo a fatos do quotidiano minhas afirmações e conclusões, e um leitor atento pode entendê-las facilmente nos momentos de lazer, mesmo não sendo cientista.

Vou abrir hoje uma exceção, incluindo algumas frases colhidas em reportagem sobre pesquisa científica de equipe altamente qualificada. Chegou-me às mãos pela gentileza de um leitor, impressionado com o que leu naquela crônica:

Os dados do exame do cérebro sugerem que, ao escrever, prepara-se um sistema que facilita a leitura quando as crianças começam a passar por este processo. Quando as crianças aprendem a escrever as letras à mão, o cérebro parece ficar ligado e responder de forma diferente às letras, estabelecendo uma ligação entre o processo de aprender a escrever e o de aprender a ler. Desenvolver as habilidades motoras mais sofisticadas, necessárias para escrever à mão, pode ser benéfico em muitas outras áreas do desenvolvimento cognitivo. Pelo que concluiu a pesquisa, nada parece substituir o aprendizado com a escrita à mão”. Veja mais detalhes neste link:

Meu radicalismo pode parecer sem base, exagerado, mas veja que estou em boa companhia. Não falta nem a indiscutível ressonância magnética. Já que gastaram tanta ciência e tecnologia para chegar às mesmas conclusões deste cronista, não tenha receio em radicalizar como eles mandam. Não lhe parece lógica esta decisão? E não me sentirei ofendido se firmar sua decisão baseado nas conclusões deles.

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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

ATROFIA MENTAL COM DIGITADURA

Jacinto Flexa


Não me lembro de alguém ter-me perguntado, quando eu frequentava o grupo escolar, em qual profissão eu gostaria de trabalhar quando crescesse. Mas se algum curioso quisesse saber a resposta, provavelmente ouviria algo assim: Quero trabalhar em qualquer coisa que não dê trabalho.

Esta introdução pouco autoelogiosa poderia levar alguns a imaginar-me um preguiçoso incorrigível, vagabundo. Bem longe da verdade estaria essa impressão. Nunca fui preguiçoso, mas aquela minha provável resposta explicava-se pelos meus escassos conhecimentos sobre trabalho, limitados então ao uso de instrumentos como enxada, machado, picareta, serrote, foice. Numa visão retrospectiva, posso confirmar que nunca me entusiasmariam trabalhos movidos a músculos, suor, calos, mas era quase só isso que eu via por lá. Conheci depois trabalhos mais importantes e menos hercúleos, como o de manusear minha caneta enquanto escrevo uma crônica.

A importância do trabalho raramente é proporcional ao suor que ele produz. Mesmo sendo o instrumento uma leve caneta, pode ser até mais cansativo. Com a tecnologia moderna, o trabalho pesadão foi transferido para as máquinas; e o que já podemos lamentar, neste nosso mundo desequilibrado, é o excesso de redução do trabalho. Parece contraditório isso, mas vou explicar-lhe.

Começo por lembrar que as máquinas, geralmente fabricadas para substituir ou reduzir o trabalho humano, vêm assumindo papel cada vez mais importante. Muitas censuras se poderiam fazer ao modo como elas realizam essa substituição, mas quero apenas mostrar que há limites para isso. Difíceis de estabelecer, mas existem. Farei uma tentativa de exemplificação, sem a pretensão de esgotar o assunto.

Qualquer um sabe que os automóveis vêm sendo aperfeiçoados desde os primeiros modelos. Quem conheceu a manícula (aquela manivela usada para iniciar o funcionamento do motor), certamente não dispensaria hoje a ignição eletrônica. Muitos outros dispositivos dos carros modernos quase não são percebidos. Facilitam nossa vida, e só se dão a conhecer quando param de funcionar. Podem até paralisar o veículo, e enquanto isso ficamos à mercê da rede autorizada.

Geralmente os dispositivos novos vão entrando, sem pedir licença. Quando tomam conta do pedaço, é difícil tirá-los de lá. Ninguém precisava deles, mas tornam-se indispensáveis depois que entram. Por exemplo, até algum tempo atrás os taxistas conheciam todas as ruas, trajetos, desvios, acessos, mas um brinquedinho chamado GPS está dispensando e reduzindo essa habilidade invejável. Um sabe-tudo prepotente vai mandando, por meio do aparelhinho: Vire à direita na próxima rua; siga em frente até o viaduto; vire à esquerda... Antes ele sabia tudo isso, por dever de ofício, e agora se submete às ordens ditatoriais de um sabe-tudo digital. Eis aí mais um item da decadência universal. Perdendo essa habilidade, o taxista perde ou reduz também sua capacidade de atender todos os clientes com presteza e rapidez, informar o caminho a quem está perdido numa metrópole, encurtar ou simplificar trajetos, etc.

A última referência do parágrafo anterior me lembra uma economia que fiz, por conhecer melhor o trajeto do que o GPS. Moro em um edifício de esquina (rua A com rua B, para facilitar). Tomei um taxi, indiquei o endereço, o motorista digitou no GPS, e tudo foi bem até uma esquina da rua B, a um quarteirão da minha residência. Porém a entrada do edifício fica na rua A, e o sabe-tudo mandava dar uma volta de cinco quarteirões (há mãos e contra-mãos), que nos deixaria diante da entrada. A despesa aumentaria pouco, mas ordenei entrar pela rua B, percorremos só um quarteirão até a esquina da rua A, e lucrei ainda o prazer de contrariar o sabe-tudo. Minha admiração pelo progresso não inclui a aceitação de erros dos sabe-tudo.

Estão em fase final os testes de carros que dispensam motoristas. Enquanto o sabe-tudo digital executa o trajeto que alguém lhe deu, pode-se até dormir. Mas eu não dormiria tranquilo, sabendo que de fato o sabe-tudo não sabe tudo, e é tão falível quanto os seus programadores. Quem tem confiança ilimitada na tecnologia pode assumir as consequências, mas não me inclua nesse procedimento irresponsável.

Todos se acostumam a não saber, não aprender, e a imbecilidade coletiva avança a passos largos. Se esses brinquedinhos digitais nos dispensam de pensar, a consequência é ficar inativa uma área do cérebro feita para ser usada. E ela se atrofia, como acontece com os músculos de um braço imobilizado. É isso o que você quer para o seu futuro, para o futuro da humanidade? Não quero ser vítima dessa atrofia mental comandada pelos sabe-tudo. Suspeito até que eles mesmos já estão atingidos por essa atrofia. Confiar em gente assim?! Atrofiar meu próprio cérebro!?!

Leitores pouco familiarizados com minhas diatribes contra brinquedinhos digitais poderiam julgar-me retrógrado, desligado do progresso, aferrado a métodos antiquados. Bem ao contrário, estou pensando no futuro, muito à frente do nosso tempo. E vejo que, sem perceber, caminhamos para uma ditadura digital global, invisível. Como cidadão que nasceu analógico, tenho todo o direito de recusar e hostilizar a ditadura digital, ou digitadura. Contesto os objetivos inconfessáveis dos sabe-tudo digitais, e recuso em caráter definitivo essa digitadura em implantação.
Esgotou-se o meu espaço de hoje, mas prometo voltar ao assunto.


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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

COMBINANDO COM O JOÃO DE LÁ

Jacinto flexa

Em alguns momentos da minha vida profissional, precisei acompanhar a fabricação de frascos e objetos de plástico. Acabei conhecendo desse ramo o suficiente para avaliar se alguma ideia nova é viável ou não. Conhecimento muito útil, que me permite excluir projetos inventivos quando já sei que as máquinas não conseguem fazê-los. Isso me poupa tempo, despesas e aborrecimentos.

Um disco voador, que meu irmão e eu projetamos e executamos quando éramos crianças, não dependeu desses conhecimentos. Usando material improvisado em casa, recortamos uma lata com forma de hélice e fizemos no meio dela dois furos, que permitiam encaixá-la em dois preguinhos sem a cabeça, fixados em uma das extremidades de um carretel de linha. Enrolamos no carretel um cordão conhecido como barquinha, e seguramos o conjunto por meio de um suporte de madeira introduzido no furo do carretel. Puxando com força o cordão, a hélice girava junto com o carretel, até se destacar e sair voando como se fosse um disco. Funcionava bem melhor que um modelo de plástico parecido, lançado no mercado dois anos depois.

Num trabalho inventivo recente, consegui incluir vinte ferramentas em uma única chapa metálica de 6x6 cm. Uma verdadeira caixa de ferramentas quebra-galho, para pequenos serviços, contendo 4 chaves de fenda, 3 chaves de porca, 3 limas, apontador de lápis e grafite, todos os instrumentos para lidar com fios elétricos, removedor de grampos, abridor de garrafas, abridor de latas, perfurador de latas, removedor de pregos. Tão pequena e tão cômoda, que pode ser transportada em algibeira, bolsa, mochila, porta-luvas, até entre as páginas de um livro ou caderno.

Agora vem a decepção. Eu a projetei em função do que conheço sobre máquinas para injeção de plástico; mas ela tem de ser feita em metal, e eu não conhecia algumas limitações da indústria metalúrgica, maiores que as do plástico.

(E o que tenho eu a ver com a sua falta de conhecimento técnico?)

Se eu lhe conto tudo isso, não é para enaltecer minhas aptidões nem lamentar as que não tenho. Minha função, nesta coluna, é atirar flechas, e não posso atirá-las em mim mesmo. Não me consta, pelo menos, que um infeliz tenha conseguido o suicídio crivando-se de flechas. Portanto, é bom alguém por aí se preparar, porque só me falta completar a pontaria e disparar.

Quando alguém elabora um projeto, mas esquece, desconhece ou deixa de avaliar um dado importante, um obstáculo a ser removido, um cronograma a ser seguido, uma verba a ser conseguida, o mais provável é não dar certo. Projetos pequenos, projetos grandes, megaprojetos, dá no mesmo. A remoção ou superação dos empecilhos precisa ser avaliada na fase de elaboração e combinada com os agentes, do contrário poderá tornar-se inviável um projeto em andamento. E quando o projeto é do governo, onde ninguém é dono de nada e age como se fosse dono de tudo, inclusive do que é meu, a probabilidade de dar errado torna-se quase uma certeza.

Assim as obras inacabadas no Brasil vão se multiplicando: Parques eólicos concluídos, sem combinar a rede de transmissão; pista de aeroporto concluída, sem combinar as instalações para embarque e desembarque; ferrovia para exportação, sem combinar o porto correspondente; trem de alta velocidade, sem combinar os passageiros para ocupá-lo; montanhas de computadores para as escolas, sem combinar o treinamento dos professores; máquinas caras enferrujando em almoxarifados, por falta de combinar as instalações; bolsas de estudos no exterior, sem combinar o envio do dinheiro. E a lista ainda iria muito longe.

Se alguém quer saber quem é culpado por tudo isso, desista, pois nessa área ninguém é dono de nada nem responsável por nada. Punição? Nem pensar, está todo mundo em casa. Solução? Nenhuma possível enquanto um bando de aventureiros age como se não existisse o João de lá.
(E essa agora! Quem é esse João, que surgiu abruptamente do nada?)

Conta-se do nosso saudoso Garrincha que ele não conseguia aprender os nomes dos adversários estrangeiros, e chamava a todos de João. Um dia o técnico explicava ao time uma jogada genial, em que uns tinham de fazer isso mais aquilo, outros deviam driblar não sei quantos, e afinal um último estaria à espera do passe (fora da “banheira”, é claro) para chutar em gol. Garrincha indagou do técnico:

— Sêu Feóla, sem que mal lhe pergunte, o senhor já combinou isso tudo com o João de lá?
Uma variante do caso é “combinar com os russos”, mas dá no mesmo quando se trata de combinações imprescindíveis. Falta combinar ou PACtuar muita coisa com o João de lá. Ele sempre existe, e disposto a fazer exatamente o contrário.

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CACHOEIRAS E SONOLÊNCIA

Jacinto Flexa

Em recente visita aos meus alfarrábios, encontrei um conto interessante, que passo a resumir para o prezado leitor.

Depois de observarem atentamente o comportamento noturno de uma pequena cidade, dois ladrões discutiram as possibilidades de êxito para o assalto. Como todas as casas tinham cachorros, o primeiro ladrão objetou que o da casa acordaria o dono. Mesmo se agissem cautelosamente, eles não teriam escapatória. O outro, mais experiente e atento à psicologia, afirmou que o latido do cachorro seria ótimo para o assalto. Ante a surpresa do comparsa, explicou:

— Quando o cachorro da casa latir, os da vizinhança vão acompanhar. Os policiais não terão como descobrir o local do assalto, pois haverá cães latindo em todas as casas. Os latidos vão até ajudar, abafando os ruídos que fizermos.

Concordaram que a ideia era genial, acertaram os detalhes da investida, e logo confirmaram que a confraria canina latia pra valer. Tudo corria bem, e eles nem se preocuparam mais com os ruídos que faziam. Aos poucos os cachorros foram parando de latir. Depois de alguns minutos chegou a polícia e os flagrou com a mão na massa. A caminho da delegacia, não conseguiam entender o que dera errado, e por quê. Perguntaram, e o policial explicou:

— Vocês não são os primeiros. Acontece que todos aqui estão acostumados com o latido dos cachorros, e continuam dormindo. Mas para o nosso trabalho, basta observar onde está o primeiro cachorro que parou de latir. Os outros vão parando de acordo com a proximidade, na mesma ordem em que começaram. Não dá para errar, nós sempre achamos o local do assalto.

Não sei se na prática as coisas funcionam exatamente assim, mas interessa-me o fenômeno de início e fim da sinfonia canina. Cabe ao primeiro cachorro despertar o dono da casa. Neste caso ele age como o spala de uma orquestra, e num crescendo esta atinge o seu tutti. Se o dono da casa não liga, o cachorro toma os intrusos como amigos, silencia seu instrumento vocal, e todos os outros o vão acompanhando. Se non è vero, è bene trovato, e isso me basta para fustigar certo tipo de cachorros.

(Por quê?! Que culpa têm os cachorros? Você parece perseguidor de cachorros)

Os cachorros não têm culpa. Estão ali para latir, e cumprem sua tarefa. De quem é então a culpa? Sua, meu caro leitor. Não, não adianta interromper a leitura e fugir de fininho, com ares de ofendido, porque a coisa é assim mesmo. Quer que eu explique?

Examine bem os fatos. Sendo o dono da casa, você compra um cachorro bravo para que o latido dele o acorde quando se apresente o intruso. O cachorro late o quanto pode, consegue até a ajuda prestimosa dos outros. Se você não acorda, ou volta a dormir depois que acordou, é sinal de que achou tudo normal. O cachorro cumpriu o seu papel, e a culpa só pode ser sua.

Entendeu bem o raciocínio? Pois então vamos a uma aplicação concreta.

Algum tempo atrás, a imprensa passou a divulgar o “caso Cachoeira”. Falou-se tanto de cachoeira, com tantas novidades diárias, tantos comentários, tanta piada para todos os gostos – uma verdadeira sinfonia canina anti-cachoeira – que aos poucos as pessoas ficaram saturadas, desinteressadas. sonolentas. Tanta insistência em cachoeira tornou irritante qualquer alusão a água escorrendo – queda d’água, enxurrada, cascata, corredeira, torneira aberta – servindo de sinal para a imprensa silenciar sobre isso e mudar de assunto. Aos poucos a mídia parou de matraquear, e o distinto público foi esquecendo cachoeiras e escândalos. Não se viu uma solução adequada para as irregularidades, mas a gritaria acabou e tudo voltou aparentemente ao normal.

A propósito, o que foi feito do tal Cachoeira? Não sabe? Eu também não sei. Nem o pessoal da imprensa, tão zeloso em divulgar as cachoeirices, provavelmente não saberá informar-nos de pronto, sem consultar algum arquivo ou outras fontes jornalísticas. Transfira esses dados para mensalão, Celso Daniel, lava-jato, petrolão...

Uma sequência de fatos cachoeirável, como qualquer uma dessas, será sempre motivo para alardes. Se deixamos de nos importar com a gritaria e com o que continua acontecendo, manifestamos assim nossa tácita anuência. A imprensa cumpriu o seu papel, pelo menos enquanto o assunto dava ibope. Mas não reclamamos quando pararam de nos alertar, e assim contribuímos para os interessados arquivarem o assunto. Não cumprindo nosso dever, não reclamando, não protestando, temos que aguentar as consequências. E os cachoeiras da vida nos agradecem.

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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

A UM PASSO DA ETERNIDADE Em prosa e verso

Jacinto Flecha



Winston Churchill gostava de pintar, e o fazia nos seus tempos livres como forma de descanso. Perguntado sobre o que pretendia fazer durante a eternidade, respondeu que o seu primeiro milhão de anos ele passaria pintando.

Outro estadista europeu do mesmo período foi também pintor, e suponho que não tenha se dedicado à arte enquanto conduzia o mundo a uma guerra devastadora. Não me consta que Hitler tenha dito algo sobre o que faria durante a eternidade, mas temo que sua vida terrena não tenha merecido para a vida eterna o descanso que, para Churchill, significaria pintar lá os seus quadros.

É muito natural que as pessoas passem algum tempo da vida presente pensando sobre o tipo de vida que lhes será concedido após a morte. Resolvi então fazer uma rápida pesquisa – muito longe de exaustiva ou completa – do que algumas pessoas pensaram e escreveram sobre a eternidade. Excluídas outras alternativas, por motivos vários, limitei-me na poesia às trovas; e às frases sintéticas na prosa. Sem a pretensão de ter esgotado o assunto, intercalei e apresento abaixo o que encontrei.

▪ Da vida não choro as quedas / Pois no tempo que se evade /
Minhas horas são moedas / Com que eu compro a eternidade.

• O que fazemos em vida ecoa pela eternidade.

▪ Neste mundo se padece / Mas nós temos luz eterna /
Pois quando a estrada escurece / Deus recarrega a lanterna.

• Este mundo é para trabalhar e combater, a eternidade é para descansar.

▪ O tempo tem seus deslizes / Pois pára quando sofremos /
Porém se estamos felizes / Passa voando e não vemos.

• O tempo é a imagem móvel da eternidade imóvel.

▪ Eternidade, és aurora / De mãos dadas com o poente /
Numa ciranda onde a hora / Brinca com o tempo da gente.

• A eternidade é um relógio sem ponteiros.

▪ Tempo é moinho rangendo / Aos ventos da eternidade /
Trigais de sonhos moendo / Para o meu pão de saudade.

• Tudo o que nasce deve morrer, passando pela natureza em direção à eternidade.

▪ Eternos não são meus risos / Nem meus momentos tristonhos /
Mas sendo bem mais precisos / Serão eternos meus sonhos.

• Diante da eternidade, as montanhas são tão passageiras quanto as nuvens.

▪ Meu coração é um menino / Que domando o tempo e a idade /
Monta em pêlo seu destino / E cavalga à eternidade.

• O que rejeitares do momento, eternidade nenhuma o restituirá.

• Quem mata o tempo injuria a eternidade.

• Quem mata o tempo não é assassino, mas um suicida.

• Não se deve brincar com a vida, porque um dia se morre.

▪ O tempo é dura parada / Merece até nosso estudo /
Quem tem tempo não faz nada / Quem não tem tempo faz tudo.

• A educação é um seguro para a vida e um passaporte para a eternidade.

Um professor atinge a eternidade, pois nunca sabe onde sua influência termina.

▪ Mesmo não sabendo nada / Digo aos crentes e aos ateus /
Que a eternidade é uma estrada / Com o tamanho de Deus.

• Só um livro é capaz de fazer a eternidade de um povo.

• Há momentos em que de repente o tempo pára, e acontece a eternidade.

▪ A esperança é meu norte / Que a minha fé consolida /
A inexistência da morte / E a eternidade da vida.

• A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar duram uma eternidade.

▪ Senhor, quem visa o projeto / Da eternidade ao Teu lado /
Sabe que um caminho reto / É meio caminho andado.

▪ A vida é uma longa estrada / Que conduz à eternidade /
O tempo é ponte assentada / Nos pilares da saudade.

▪ Eternidade é um navio / Que no mar de sonhos mortos /
Vence mais um desafio / Sempre que encontra outros portos.

• Sofrer, é só uma vez; vencer, é para a eternidade.

▪ São bem lentos os meus passos / Quando a desdita me invade /
Mas vencendo meus fracassos / Vou além da eternidade.

• Ponha a mente no espelho da eternidade, a alma no esplendor da glória.


• A eternidade rompe qualquer medida e destrói qualquer comparação.

• Este mundo é só vaidade. A vida é um sonho, tudo passa, tudo acaba. Acabaremos antes que o mundo acabe, mas vivemos como se fôssemos imortais ou não houvesse eternidade.

Como você pode concluir, a visão das pessoas sobre a eternidade varia muito, mesmo considerando-se a exiguidade dos depoimentos que encontrei. Mas podemos estar certos de que o teor da nossa vida eterna terá tudo a ver com o que pensarmos, desejarmos ou fizermos durante esta vida.

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Esta crônica semanal pode ser reproduzida e divulgada livremente